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Pode o Ser Humano Conhecer-se?

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10/03/2016

O extraordinário impulso do ser humano para conhecer não sofreu nenhum tipo de barreira durante séculos, barreira metodológica, que contestasse a atitude natural confiante de que o mundo ou a realidade era como parecia ser ao sujeito que procurava conhecer. Assim a atitude natural ou ingênua confiava que a realidade era como se a percebia. O ser humano durante longos milênios deu asas à sua própria imaginação, interpretando os fenômenos de diversas maneiras, sem colocar para si mesmo o ato de perquirir como um problema.

A situação só começa a mudar com o desenvolvimento do pensamento abstrato, especificamente com a invenção da escrita alfabética. A palavra passou a representar as coisas. O grafado podia ser pensado e repensado, podia ser lido por outros e também contestado. Com o desenvolvimento do pensamento abstrato o ser humano passou a questionar os próprios conceitos. O exemplo magnífico na história antiga é representado por Sócrates que, baseando-se na contribuição de outros pensadores, afirmara que o conhecimento da verdade deveria passar por fases intelectuais, saltando de uma fase puramente afetiva, a opinião, para uma outra fase, denominada de conceito. Neste estaria a verdade que foi obtida por uma espécie de ascese ou purificação intelectual, no exame contínuo das próprias ideias. Esta prática metodológica foi praticadas por vários pensadores.Basta observar os trabalhos de Antônio Gramsci ou Paulo Freire, nos dias atuais, para citar apenas dois.  

Na modernidade europeia dos séculos XVII e XVIII o pensamento científico ancorou-se na teoria da causalidade, ou seja, o conhecimento se realiza quando se estabelece a relação entre causa e efeito nos fenômenos observados. As ciências naturais ou empíricas têm colocado em práticas este procedimento metodológico. Tanto sucesso ganhou o método experimental que vários pensadores afirmaram que o conhecimento da sociedade, da cultura, dos problemas sociais e, portanto, o conhecimento do ser humano deveria aplicar o método da causalidade porque seria ele o único válido. 

No conhecimento do homem poder-se-ia aplicar o método experimental? No campo das ciências sociais – antropologia, sociologia, psicologia -, e também no campo filosófico vários pesquisadores têm criticado o procedimento da causalidade, quando aplicado no conhecimento do ser humano. Algumas questões que se levantam, criticando o método experimental aplicado ao social são conhecidas como dificuldades metodológicas.

Uma primeira dificuldade metodológica para o conhecimento em ciências humanas liga-se à ideia de complexidade. Afirma-se que no conhecimento dos fenômenos humanos não se deve aplicar um método que simplifique comportamentos complexos, comportamentos de indivíduos e grupos, por exemplo. Os comportamentos humanos têm variadas influências como hereditariedade, cultura, contexto sócio-histórico, impulsos, desejos, memórias, vontades, tornando os comportamentos complexos para serem compreendidos usando um método simplificador como o é a relação causa e efeito. A relação de causalidade aqui seria muito mecânica. 

Outra dificuldade é a da experimentação. A construção de uma experiência seria um ato de controle, artificial. Não daria aqui para captar as reais motivações dos sujeitos e as reações dos sujeitos são variáveis, podendo falsear os resultados. Há ainda aqui as questões éticas implicadas nos experimentos com seres humanos. 

Há também o problema da matematização dos comportamentos humanos. Matematizar implica em estabelecer quantidades e as atitudes e reações humanas são qualitativas e essas não são captadas em números. As porcentagens não captariam o sentido dos atos dos indivíduos. 

Os comportamentos dos indivíduos são subjetivos e aqui entra a questão da subjetividade como também uma dificuldade metodológica. A ciência experimental busca o objeto, portanto, a objetividade. No ato de conhecer o sujeito deve desvencilhar-se de emoções, crenças, ideias preconcebidas, ideologias, pois tudo isso pode interferir nos resultados. E o sujeito que conhece é também o objeto a ser conhecido e aqui parece difícil contornar o subjetivo. Uma imagem aplicada à essa questão é a seguinte: “não posso estar à janela e analisar-me quando passo na rua”.

As dificuldades metodológicas apontam os desafios que tem as ciências sociais para encontrar uma qualidade fundamental ou essência a partir da qual se poderá qualificar o humano. Encontramos entre os antropólogos culturais, por exemplo, uma afirmação de que, sendo o ser humano um ser de relações, só se poderá compreender o ser humano se o mesmo estiver inserido em relações sociais concretas. As qualidades humanas são construídas em relações dos seres humanos uns com os outros. Essa afirmação do campo antropológico é encontrada também na sociologia. 

Uma vertente do campo psicológico, como a psicanálise, inventada pelo médico austríaco Sigmund Freud, tem afirmado que o comportamento humano é determinado não pela consciência, mas pela parte não consciente do indivíduo, o inconsciente. Os atos e atitudes dos indivíduos seriam determinados por impulsos e desejos que a consciência não percebe. Afirma-se que a descoberta do inconsciente mudou a própria imagem que se fazia do homem, sustentada pela tradição racionalista da cultura ocidental. 

Conseguirão as ciências sociais conhecer esse microcosmo que é o ser humano? Os desafios continuam enormes, mas os pesquisadores têm insistido na mudança de perspectiva do método. Afirmam, seguindo o sociólogo alemão Max Weber e a escola fenomenológica e também os pesquisadores da psicologia social que o ato humano não pode ser explicado como um objeto, como faz o método experimental, mas das ações humanas só podemos ter a compreensão. Será o método da compreensão o caminho para se atingir o sentido das ações humanas. 

*Professor da Universidade Federal do Espírito Santo; Mestre em Filosofia e Sociedade.

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