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Fazenda Boa Esperança – Uma Torre de Babel Caipira

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18/06/2017

Por: Dilermando Teodoro* 

Transcorrido mais de meio século, resolvo destampar a “chaleira”, meio esquecida, mas ainda quente, sobre a trempe fumegante do velho fogão de lenha, de minhas doces recordações de “Menino Bicho do Mato” avivando e atiçando o “fogo” da enorme saudade, de meus queridos pais, Agustavo Teodoro de Oliveira e Angelina Rocha de Oliveira, na Fazenda Boa Esperança, localizada no município de Mutum, em Minas Gerais. De maneira tosca e primitiva, passo a garatujar, o que vi, vivi, presenciei, durante a minha inesquecível infância e juventude, na companhia de meus irmãos, de meninos com eu moradores da fazenda, como meus inseparáveis amigos de infância, José Renato, Ana Maria e Maria Lucia e tantos outros das redondezas, colonos, colaboradores, fornecedores, clientes, gente das mais variadas profissões e classes sociais. Curioso e atento armazenei no fundo do “picuá” de minhas memórias as mais fantásticas recordações de um Brasil rural e primitivo em que a vida fluía em outro “diapasão”, em que o tempo contado, era pelas fases da lua, a natureza dava o tom, plantio, florada e colheita, decidindo presente e futuro da vida. O tempo foi e será sempre o senhor da razão. Permanecem vivas em minha memória o tic, tac, do relógio na parede, da sala do centenário casarão da fazenda, anunciando de hora em hora, com suas badaladas, o transcorrer preguiçoso das horas. Eu não esqueço o som inconfundível e compassado dos cincerros da “guia, a besta Cigana” da bela tropa “Ruana”, que levantava ao longe uma nuvem de poeira vermelha.  Eu extasiado acompanhava a tropa até a sua chegada no terreiro da fazenda, sonhando o dia em que eu também seria um tropeiro, correndo e conhecendo o mundo atrás da tropa “Ruana”. Lembro do tropeiro, “Neca da Zumira” ruço, coberto de pó, contente por mais uma jornada cumprida. Ele gostava daquela rústica e estafante missão exercida por mais de duas décadas. Não sai da minha cabeça o canto agudo das rodas do carro de bois, descendo o morro da “matinha”, trazendo produtos da roça, conduzido pelo mestre carreiro, “Zé Magro” com sua batuta “aguilhada”. Tudo isto esta na minha memória como o aboio do vaqueiro, recolhendo as leiteiras, o mugido aflito de vacas e bezerros, no tropel da chegada, nas madrugadas frias do inverno. O ranger das carcomidas moendas do velho engenho de madeira, esmagando os colmos da cana de açúcar e o cheiro delicioso do melado, fervilhando na tacha, para transformarem em rapaduras, indispensável componente no preparo tradicional do café nosso de todos os dias, de gente simples da roça. Deliciosos cheiros e aromas, proveniente da cozinha, no preparo de iguarias mineiras, elaboradas com banha de porco, por cozinheiras na labuta diária, do amanhecer ao anoitecer, da mesa farta, aonde quem chegasse, era bem vindo. O barulho inconfundível do giro infinito da “pedra mó”, esmagando grãos de milho, tanando-os em pó, para alimentos básicos da dieta caipira mineira, do angu, da canjiquinha e dos mingaus.  A realização constante e diária do escambo, milho por fubá, com colonos e moradores da região, pelo “moleiro” da fazenda. O farfalhar da roda d’água do moinho, ninando minhas noites de sono, sonhando com a morena dos “sonhos”... Saudoso como eu, o sabujo vira-latas, “Pirigo” uiva triste sua agonia, nas noites de lua cheia, lembrando-se das raízes de seus ancestrais, quando livre e selvagem, corria solta pelos campos e savanas... Inocente, como eu, atormentavam meu sono, com seus agourentos e prolongados uivos, pelas histórias e superstições contadas pelos adultos, que povoaram meu fértil imaginário, de “menino bicho do mata” com monstros, lobisomens, mulas sem cabeças, bruxas e duendes. No silencio da noite, o estrondar da batida da porteira da encruzilhada, denunciava a passagem do ultimo caminheiro que por ela passou, vagando pela escuridão da noite... O vale, invadido pelo eco da buzina estridente do caminhão GMC-450, do alto do morro do “Palmital” anunciando triunfante a chegada, trazendo as mais variadas mercadorias para o armazém - “Casa Teodoro” e, pronto para nova partida, levando a riqueza do rico vale do São Manoel. O café beneficiado para o maior centro de comercialização do produto – Manhumirim – “A Princesinha de Minas”. As intermináveis prosas travadas entre fregueses e os sócios proprietários, João Estevão Rodrigues e Maria Lopes Fonseca, no armazém, no atendimento cordial e eficiente nas bem sucedidas comercializações de produtos variados – Secos & Molhados. Tecidos, calçados, ferramentas e utensílios domésticos. Alô, alô... Repórter Esso alô! - Musica do prefixo inconfundível, voz grave e bem postada de Heron Domingues, anunciava invariavelmente repedindo por três vezes ao dia: às 7hs55m, às 12hs55m e as 19hs55m, religiosamente acompanhado por meu pai, que não admitia ser interrompido durante a transmissão do noticiário, atualizando-o com as mais importantes noticias do país, inclusive informando o preço do café na bolsa de mercadorias e suas tendências de futuros ajuste no preço, do importante produto de exportação. Às 19 horas, na Capital Federal, anuncia o locutor, a opera “O Guarani”, ecoa pelo ambiente, é o inicio da “Hora do Brasil”, também acompanhado com atenção pelo patriarca, atualizando-se com as noticias políticas do país, uma de suas paixões. Usuário assíduo do rádio, desde a época do rádio de válvulas, posteriormente com os portáteis. Jamais dispensou a companhia constante e diária deste importante e único meio de informação, ao alcance do homem rural, disponível na época, atualizando-se do que acontecia no país e no mundo. Vizinhos, com ares de assustados, envergonhados, aflitos, vinham pedir ajuda e mediação para os mais variados problemas domésticos. Em certas ocasiões, falando baixinho, quase sussurrando, pais e mães relatavam que a filha havia “se perdida” com rapaz também da vizinhança, pedindo ajuda, para a realização emergencial do casamento, para evitar humilhante constrangimento de “casamento na policia”, conhecido como casamento na “Igreja Verde”. Com franqueza, honestidade, respeito e autoridade que lhe foi outorgado por todos, como um líder conciliador, sempre levava a bom termo estas questiúnculas familiares, evitando desavenças e violências entre elas. O assobio estridente, inconfundível, produzido pelos dedos em circulo na boca, audível a centenas de metros, como forma de comunicação pelo comandante desta “Torre de Babel Caipira” meu pai, com suas nuances e peculiaridades: Um assobio rápido, alerta; dois assobios prolongados, solicitando a presença de alguém, que tanto podia ser de um filho, um colaborador, um visitante; três assobios rápidos e repetidos, emergência total, todos deveriam correr pra junto dele, para saber o ocorrido, receber e cumprir ordens. Assim foi, por muitos anos, a maneiras de comunicar-se, com tudo e com todos a sua volta, aceito, respeitado e compreendido por aqueles que com ele conviveu...
O doce cantarolar sereno de minha mamãe, de hinos em orações de agradecimentos, na sua inabalável fé cristã. Convicta religiosa, membro praticante e assídua na Igreja Batista, desde a juventude. Com sua sabedoria e invejável visão de futuro – “mãe enxerga atrás do morro”, dizia, insistiu para que o marido investisse na educação dos filhos, garantindo-os um futuro melhor. Convencido, matriculou os três mais velhos no “Colégio Evangélico” de Jequitibá, hoje Presidente Soares, onde já estudavam alguns filhos de famílias da cidade. Foi o inicio da continuidade que todos trilharam. Estudar, mesmo tendo que enfrentar os mais difíceis obstáculos, sempre recebendo o apoio incondicional, na ferrenha luta da vida estudantil, na busca do conhecimento e qualificação profissional. A Fazenda Boa Esperança, através de seus gestores desempenhou um importante papel, social e econômico, no micro região do médio vale do São Manoel, como em nenhuma outra fazenda da região. Comprava todo e qualquer produto produzido na agricultura. Fornecia pelo método de escambo, o ano todo, gêneros necessários aos colonos e clientes, no bom desempenho das lavouras, principalmente café, para acerto na colheita anual do produto. Bem estruturada, tinha os meios, para recolhimento dos mesmos, através de tropas cargueiras, nas regiões montanhosas e de difícil acesso, carros de bois, para as regiões próximas e planas. Máquina de beneficiamento de café, estrategicamente baseada em Roseiral, pela proximidade da região produtora, funcionando vinte e quatro horas por dia, durante safra. Um caminhão seminovo, com capacidade pra nove toneladas de carga útil, quando a maioria, era de seis toneladas, fazendo o transporte para Manhumirim, importante centro de comercio de café. Tulhas e paióis para estocagem de grande quantidade de milho, arroz e feijão, adquiridos das treze famílias de colonos moradoras na fazendo e demais pequenos produtores da agricultura familiar, ali existente. Este modelo perdurou por mais de três décadas, entrando em decadência no final dos anos setenta, pela concorrência predatória e, novos e modernos modelos de negócios, mas rentável e seguro. Com a diminuição abrupta da produtividade das pequenas propriedades, tornando-as inviáveis e insustentáveis economicamente, provocando o enorme êxodo rural, como nunca antes visto. Hoje, ao passar pela decadente, Fazenda Boa Esperança, que não pertence mais a família Teodoro, nem de longe, lembra o que um dia foi, cheio de vida, prospera e organizada. Um nó na garganta, uma lagrima mareja teimosamente no canto dos olhos, saudoso, retorno ao passado distante, recordando dos dias felizes que ali vivi, com meus pais, irmão e amigos de infância e juventude. O artigo foi escrito em junho de 2017 na Fazenda Santa Fé do Mutum, no município de Ariquemes, no Estado de Rondônia.
 
Sede da fazenda Boa Esperança - O autor deste artigo, Dilermano é o menino de calça-curta (bermuda), em uma foto da família.


Atual sede da fazenda.

Atual sede



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