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Um Domingo de Lembranças

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10/04/2017 - por Nancy Araújo de Souza

   Para mim, domingo há muitos anos, é um dia como os outros. Enquanto trabalhava era um dia esperado para descanso e outras coisas, atualmente todos os dias são domingos e quase sempre iguais, exceto quando tenho que me sentar sozinha à mesa do almoço, como hoje. No seu único dia de descanso, minha filha precisou trabalhar no restaurante cobrindo férias de uma colega. O que fazer? Almoçar com a cachorrinha cega, aqui ao lado já que ela não sabe se comportar à mesa. Depois do almoço, decidi ler um pouco. Sair de casa no domingo nem pensar, a não ser que seja por uma muito boa razão. As ruas ficam desertas, os ônibus desaparecem, cinema é mais caro e o táxi também. Assim, como todos os dias são domingos para os aposentados, posso fazer qualquer programa interessante em outros dias da semana com mais segurança, gastando menos.
   Minha filha e eu damos muita importância ao momento da refeição se estamos juntas, mesmo com a televisão ligada porque ponho a mesa exatamente ao meio dia quando começa o telejornal, entretanto confesso que algumas vezes me atrapalho na cozinha e perco a hora. Voltando ao domingo, sozinha com a Hanny, li um pouco, tentei cochilar, mas não consegui, treinei no violão, liguei a televisão e, em vez de prestar atenção ao filme comecei a lembrar de certo domingo há muitos anos. Fiquei com saudades daquele tempo e das pessoas.
    Naquele domingo, meu amigo apareceu lá em casa me convidando para um programa diferente dos que fazíamos habitualmente que era um show, Concerto para a Juventude no Palácio das Artes, ficarem na minha casa ouvindo música, essas coisas leves. Naquele domingo foi me chamar para visitarmos um conterrâneo internado numa clínica psiquiátrica. Topei logo, claro. Não via o rapaz há alguns anos porque ele se mudara para o Rio e visitava poucas vezes nossa cidade não coincidindo com as minhas idas lá. Ao saber que estava internado na clínica, não lhe recusaria uma visita.
   Meu amigo contou que a família do rapaz o havia internado por ele estar envolvido com drogas, e por ter sido preso e humilhado pela polícia que raspara sua cabeça. Lembrei dos cabelos lindos dele. Muito claro, tinha cabelos louros, lisos, mas cheios, com algumas ondas, iam até o meio das costas fazendo inveja a muitas mulheres.
    Fomos para a clínica na Serra, bairro que eu conhecia bem por ter morado lá assim que chegamos a Beagá. Encontramos o amigo feliz com nossa visita, mas revoltado por ter sido levado à revelia, e por estar, segundo ele, mais dopado do que quando usava maconha. Falou de suas tristezas, da solidão e da vontade de fugir. Morando no Rio, tinha feito amizade com alguns artistas, e sua maior amiga era Elke Maravilha para quem queria telefonar com frequência e na clínica ninguém acreditava, por isso, davam-lhe mais medicamentos. Só acreditaram quando ele conseguiu, uma vez, ligar para ela que atendeu a ligação e ligou para ele outras vezes. Naquele domingo pediu-nos quase chorando que o levássemos para passar a tarde fora da clinica ou ele iria fugir dali. Eu fiquei em pânico, meu amigo topou logo, mas era ainda menor e só uma pessoa maior podia se responsabilizar pela saída do paciente. Era eu! Já tinha meus 21, talvez ou pouco mais e sobrou pra mim. O que fazer? Morri de pena, mas fiquei apavorada com a responsabilidade. Meu irmão mais velho estava viajando e eu sem saber o que fazer. Liguei para um amigo que, para nós era quase um irmão que nos dava todo o apoio e nos socorria em qualquer situação desde que chegamos a BH. Pedi ajuda para resolver o caso e ele me disse que devíamos tirar o rapaz de lá, que eu podia me responsabilizar por ele e fôssemos os três passar a tarde em sua casa. Para mim, foi o bastante.  Assinei a papelada, tiramos o rapaz de lá, depois de eu pedir que ele jurasse que não iria fugir, e preferimos ir para minha casa onde ficamos a tarde ouvindo música, conversando e ele contando as amarguras que tinha vivido em nossa cidade com a perseguição da polícia. Minha irmã tinha muito material de bijuteria que ele usou para fazer algumas peças muito bonitas como as que costumava fazer para a Elke e outros artistas. Acho que minha irmã ainda tem uma gargantilha.
    Naquela tarde ele comentou que na nossa cidade, ficava sozinho, à noite, sentado num banco da praça e minha mãe ficava na janela do sobrado até tarde enquanto ele ali estivesse. Riu e completou dizendo que pareciam dois namorados, de antigamente, ele na praça e ela na janela. Achei aquela atitude da minha mãe um pouco estranha e quando estive lá lhe perguntei a razão de ficar vigiando o rapaz e ela me disse uma coisa bonita que nunca esqueço: _” Minha filha, fico vigiando mesmo. Aquele menino é muito perseguido aqui na cidade e ele fica sozinho na praça até tarde. Sei que enquanto eu estiver na janela, ninguém vai fazer nenhuma maldade com ele”.  Coisas de outros tempos, de famílias amigas há gerações, hoje em dia as pessoas se escondem ou fazem de conta que não veem nada, ninguém quer se envolver. Não vejo o rapaz há muitos anos, pois vive mais nos Estados Unidos e tornou'-se estilista, o outro amigo mora em Brasília, vejo poucas vezes, gostaria de vê-lo com mais frequência. Assim, o domingo que a princípio parecia banal tornou-se um dia de boas lembranças e muitas saudades. Duas pessoas desta história já partiram para “fora do combinado”, mas deixaram exemplos e belas ações que nunca esquecerei.  

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